
O governo dos Estados Unidos anunciou nesta quarta-feira (28) uma decisão que altera profundamente o cenário geopolítico e o combate ao crime organizado na América Latina: as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) foram oficialmente classificadas como organizações terroristas. A medida está programada para entrar em vigor no dia 5 de junho.
As duas maiores organizações criminosas do Brasil receberam as designações de “Terroristas Globais Especialmente Designados” (Specially Designated Global Terrorists, ou SDGTs) e de “Organizações Terroristas Estrangeiras” (Foreign Terrorist Organizations, ou FTOs).
O anúncio ocorre na mesma semana em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se reuniu, em solo americano, com o presidente dos EUA, Donald Trump, e com o secretário de Estado, Marco Rubio. A ofensiva de Washington contra os cartéis de drogas e facções latino-americanas já vinha sendo desenhada desde 2025, ano em que a Casa Branca passou a tratar o narcotráfico estritamente como um assunto de segurança nacional, promovendo reuniões com líderes da região e autorizando ataques pontuais contra alvos do tráfico.
Pressão política e bastidores
A inclusão do PCC e do CV no rol de grupos terroristas — onde já figuram organizações do México e da Venezuela — vinha sendo defendida há meses por integrantes da ala mais dura do governo Trump. Reportagem publicada em abril pelo jornal The New York Times revelou que a proposta avançava a passos largos no Departamento de Estado, impulsionada pela forte interlocução e pressão dos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro junto a membros da Casa Branca.
Em março, o secretário Marco Rubio chegou a comunicar formalmente o plano ao ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira. Em resposta imediata por telefone, Vieira tentou demover o secretário americano da ideia, argumentando contra a aplicação do rótulo de terrorismo às facções nacionais. O tema também foi levado à mesa de discussões diretamente pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante seu encontro bilateral com Donald Trump, em Washington, no início de maio. Na ocasião, Lula reiterou que o Brasil trata o crime organizado como prioridade máxima de segurança pública e defendeu o fortalecimento da cooperação bilateral, sem a necessidade de sanções ou designações unilaterais.
Preocupação e divergências jurídicas
Nos bastidores do Palácio do Planalto, a decisão foi recebida com forte sinal de alerta. A principal preocupação da diplomacia e da inteligência brasileira é de que a classificação abra precedentes jurídicos para ações de força e intervenções mais agressivas por parte dos Estados Unidos. Em um cenário extremo, Washington poderia usar o argumento do combate ao terrorismo para justificar operações militares ou de inteligência em território brasileiro de forma unilateral, repetindo o que já ocorreu em outras nações.
Por outro lado, especialistas em segurança pública e juristas apontam um paradoxo na eficácia da medida. Segundo analistas, a atual legislação brasileira de combate às organizações criminosas e facções já prevê punições, regimes de isolamento e penas significativamente mais duras e adequadas à realidade do narcotráfico do que a própria Lei Antiterrorismo nacional.
